Foto: Antes (dez 2013) e Depois (outubro 2014).
A escolha de assumir os cachos veio no
decorrer do tempo. Já disse isso várias vezes e provavelmente direi algumas
(muitas) vezes mais: não é só
o cabelo!
Assumir os
caracóis negros (que a muito tempo eu não sabia que eram tão negros assim,
devido as químicas que eu utilizava) foram resultados de escolhas diárias e auto
aceitação. Tive que passar por processos de aceitar quem sou, de onde vim,
minhas origens, meus gostos, meu estilo que não é definido [...], me aceitar -
ao pé da letra mesmo. A busca por fazer um outro curso superior e ter que morar
longe de casa, o que em consequência me obrigaria à ter responsabilidades
maiores que as que eu já tinha anteriormente. Enfim, foram tantas situações e
decisões que "um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria
fazer", resolvi assumir os cachos.
O processo da
transição é lento, bem lento diga-se de passagem. No início eu pouco cuidava
dos cabelos, uso o pouco para não
enfatizar o descuidado quase que total com os cabelos. Não hidratava
corretamente - o que eu ainda estou na busca de aprender a fazer-, não sabia o
que fazer. Estava perdida, com a decisão já tomada de assumir as origens negras
existentes em mim e diversos medos. Tive problemas durante toda pré-adolescência
e adolescência em aceitar-me como sou: corpo, aparência, pele oleosa, cabelo
alisado e por ai vai...
Quando tomei a
tal decisão, meu cabelo estava um pouco abaixo da altura do ombro e foi pouco
tempo após a última escova progressiva que fiz no cabelo, contraditório assim,
fiz química, alisei pela última vez e resolvi que não queria mais.
Fotografia: Março 2013
A medida que
a raiz cacheada começava a aparecer eu me sentia feia. A medida que crescia
mais e mais eu me sentia mais feia, até por que ouvir comentários como:
"seu cabelo tá feio já né, tá na hora de alisar de novo", não ajudava
a me sentir mais bonita [kkkkkk]. Tinha lido por aí que ficar passando chapinha
não é legal nesse processo, que o atrasa. Decidi não usar mais chapinha. O que
para mim não foi difícil, já odiava passar ela no cabelo, achava um saco.
Ganhei ao longo do tempo uma dorzinha constante na mão por movimentos
repetitivos, pois a usava com muito frequência. Chapinha eliminada, um problema
a menos.
Surgiu outros. Aceitação
[a auto], era bombardeada por comentários maldosos referentes ao meu cabelo.
Parte lisa, parte cacheada e qualquer parte incomodava diretamente algumas
pessoas bem próximas a mim. Será que elas não sabiam que aqueles comentários
magoavam? Eu chorava escondida. Pensei em desistir. Mas algo me motivava a continuar.
Eu queria ser eu!
Após um ano e
sete meses, muitas desculpas para adiar o corte, fui a um salão por insistência
e pressão de uma colega, para enfim cortar o cabelo. Começamos a cortar, caiu
uma mecha, duas mechas, muitas mechas, naquele momento eu estava me sentindo
estranha. Não era o eu que eu acostumava a ver no espelho (apesar de que o
único espelho que tenho em casa é um pequeno para maquiagem - hahaha). Após
terminar, o rapaz disse: ficou lindo, você já é linda e agora assumindo assim,
vai arrasar.
Juro, eu me
senti estranha. Queria me aceitar, entender quem era aquela nova pessoa ali.
Como enfrentar as novas críticas que viriam, já que de cabelo liso na altura da
cintura passei a ter um curto, acima dos ombros e blackpower.
Fotografia: Outubro 2014/ Auto retrato.
Eu estava fora dos padrões
interioranos que aceitar cabelos cacheados é o mesmo que aceitar a
homossexualidade, praticamente fora de questão. Acho um absurdo isso.
Pensou se minha mãe (já desencarnada)
tivesse compreendido essa beleza negra como hoje eu a vejo, teria gastado menos
tempo penteando meu cabelo com pentes finíssimos para deixa-los mais rentes à
raiz. Imagino a gargalhada dela hoje me vendo com esses cabelos que são tudo,
menos rentes à raiz [kkkkkk].
Com o corte, mudei o estilo de me
vestir. Uso as mesmas roupas, de formas diferentes. Uso os mesmos batons, de
formas diferentes. O mesmo cabelo de formas diferentes... e enfim, uso-me para
ser diferente e brigar (quase uma lutadora de MMA) para que mais pessoas
aceitem-se como são de fato. Sejam elas cacheadas, alisadas, magrinhas,
gordinhas, meio termo -tipo eu-, homossexuais, loucos de pedras, enfim,
assumirem-se. Sei que há pessoas que usam cabelos alisados e gostam de usar,
sentem-se bem assim, uso como exemplo minha irmã e uma amiga que recentemente
me disse: "Alana, eu acho lindo cacheados, mas eu me sinto bem com cabelo
alisado, eu cuido, para que eu me sinta bem cada vez mais com ele assim, essa
sou eu!" Saltitei de alegria por que vi ali um exemplo real de ser o 'seu
eu' mesmo que ele não seja natural. Amiga, obrigada pelas palavras. E fico
feliz quando encontro ex-alisadas, que me falam [fala de uma em especial]:
"Olha, eu tinha vontade de assumir os cachos mas ao mesmo tempo medo e
quando vi o que você escreveu dizendo que ia assumir os cabelos cacheados e não
estava nem aí, senti como se fosse um tapa na minha cara e resolvi assumir,
obrigada viu!" Inspirações estão cheias por aí e poder EU ser uma, é um privilégio!
É, o texto ficou
enorme, e por fim concluo que: ser quem somos, é a melhor opção. Só não seja um
babaca, por que o mundo já tá cheio deles [kkkkkk]. O próximo passo dessa minha
mudança, é pintar os cabelos de azuis, algo que a anos eu pretendo fazer e não
o fiz ainda devido as químicas. Em breve novas mudanças!



