Tenho visto tanta coisa. Tenho vivido tantas coisas. Me pergunto em vários momentos se é seguro sair daqui para ir ali fora e encarar por mais um dia a hipocrisia que vivemos.
Estou preparada para aguentar calada mais uma vez o assédio dos "trabalhadores e pais de família" que moram na rua ao lado?
Estou preparada para ver a expressão de decepção da amiga que não se calou diante do assédio e quase foi agredida fisicamente, mas não escapou da agressão verbal?
Estou preparada para ouvir cada vez mais o machismo gritando "cala boca mulher, faça oque eu mando", como se fosse eu a escrava sem alforria da palavra?
Estou eu preparada para ouvir explicações falidas de argumentos para assédios que vivemos, como por exemplo: "sua roupa está muito curta", "você provocou andando assim", "você é mulher, é normal", "não é cantada, é elogio", "nossa gata, foi só um elogio", dentre tantas outras.
Sim, eu estou!!! Pois, como disse a Pitty, "não mais voltarei para a cozinha., nem para a senzala" (com algumas alterações). Nem passarei a chapinha no cabelo para passar despercebida ou alongarei o comprimento da minha roupa por medo de ser assediada. Tampouco fecharei os olhos e a palavra diante destas situações. O assédio que eu vivencio (pois o sofro quase que diariamente quando saio na rua) não vai me calar, vai me fazer falar, expressar que eu já não suporto mais. E se eu me calar, eu ei de juntar em mim forças para falar.
O medo não acabou, mas uma coragem tem começado a brotar. É a coragem de ser mulher, negra, cacheada e dona do meu corpo! Já podem se acostumar que mais outras existem e existirão por aí!
[Texto: Lanita Andrade, ago-2015
Fotografia: Autorretrato, ago-2015]
