Já compartilhei, por aí, várias vezes sobre o quão espontâneo foi o processo de tomada de decisão para deixar meus cabelos voltarem à sua versão original de fábrica (haha). Eu não sabia como eles seriam, de fato, pois me recordo de quando nova (leia-se novíssima), algo em torno dos 8 ou 9 anos de idade, minha mãe me levava ao salão para fazer relaxamento capilar, que é nada mais que soltar os fios para que eles fiquem menos volumosos o que deforma sua forma original (óbvio).
O cumprimento que eu mantinha era sempre na altura do ombro. Tinha a sensação de que eles não cresciam de "jeito maneira"/jeito nenhum. Até mesmo quando alisei pela primeira vez no ano de 2010, eles ainda ficavam nessa altura. POXA VIDA HEIN, cabelinho difícil de crescer.
Eu acabei gostando da praticidade do cabelo alisado. Fácil de lavar, pentear, arrumar. Qualquer coisa eu mudava o visual com uma trança ou um babyliss nas pontas e pronto.
Em 2013, quando eu alisei pela última vez, comecei a me sentir incomodada. Do nada mesmo. Passar horas sentada naquela cadeira era agoniante. Ficar dias com o cabelo cheirando a química que era usada para alisar. Meu cabelo era absurdamente oleoso. Pesado. E estava depois de um tempo, crescendo, enfim. Mas eu não estava mais satisfeita. Havia cansado. Decidi não alisar e não alisei. A minha cabeleireira na época (saudades das nossas conversas de horas e risadas) ainda questionava se eu realmente iria aguentar esperar todo o processo, "pode apostar que sim, vai ser dificílimo mas eu aguento", eu dizia. Como era difícil. hahaha
A medida que a raiz ia enrolando em me sentia menos bonita, menos confiante. Os comentários do tipo:
1. sua raiz está grande já né? não vai retocar?
2. seu cabelo já está feio, está na hora de retocar.
3. você vai mesmo ficar com aquele cabelo sarará igual quando era criança?
Não ajudavam muito. Mas, incrivelmente eu estava mais confiante, pelo fato de que o cabelo foi só uma das consequência de mudança que eu estava passando (já mencionei isso antes)
Comecei a cuidar do cabelo após um ano e meio de transição. Quando completou um ano e oito meses, no dia 24 de outubro de 2014 eu cortei. Troque o 'cortei' e leia-se: fui obrigada por uma amiga a ir ao salão e cortar! O dono da salão, super fofo, me disse que eu combinava com o novo corte. GENTEEE, eu nunca havia tido o cabelo tão curto, tão armado.
A primeiras vezes que eu saía com ele daquele jeito, ou eu ele estava molhado ou amarrado. Mas, boa de amizades que sou, fui obrigada por uma outra amiga a ficar com ele solto na faculdade. Ela me tomou o prendedor de cabelo e disse que era para "deixar assim". Ele estava mais armado do que quando cortei. Fiquei super insegura e usá-lo solto, mas acabei por me acostumar.
Com o tempo, meu estilo estava mudando. Usava as mesmas roupas, com mais segurança. Falava com mais segurança. Me sentia mais segura. Me redescobri mulher. Uma mulher que e não conhecia.
A praticidade de cuidados capilar se esvaiu. Demorava hora para lavar, hidratar - atualmente gasto meia hora para lavar -, mas eu estava e ESTOU FELIZ com meu cabelo, com quem eu me tornei pós ele. As vezes da uma louca em mim a saio com ele bem afro. Cheguei a pentear ele para deixar sem cachos e ver como as pessoas ainda reagem quando veem pessoas com cabelo super afro, mas isso é para um outro post.
Se alguém ainda se sente inseguro em passar por essa experiência e aceita um conselho eu digo: vá e faça! Simples assim. Só vivenciando no dia a dia a situação toda, redescobrindo-se que você vai entender. Sabemos muito bem que não tem a ver só com o cabelo, não é?
É uma experiência incrível mesmo, poder conhecer pessoas que também assumiram sua originalidade. Pessoas que nunca alisaram. Pessoas que tem ideais e luta por causas incríveis, como o respeito! Conheci pessoas incríveis, cada uma contribuindo de uma forma única nesse processo e pude contribuir no processo de várias pessoas que também passaram e passam por este processo de transição.
Hoje me sinto mais leve e mais próxima de mim. E ainda há quem acha que é só o cabelo. É a minha identidade, um eu que documento nenhum mostra, fotografia nenhuma registra, relato nenhum consegue descrever. Estou satisfeita em poder viver cada momento desse universo afro.













